Maria José silva

Maria José Silva – Tenho Pena

por Bruno Raposo

Maria José Silva, antiga proprietária da Queijaria Amaral, uma das queijarias mais conhecidas do Porto, era uma figura incontornável da cidade invicta.  Apaixonada por cinema, era uma realizadora autodidacta que, com recurso a simples câmaras de video8, gravava as suas histórias recorrendo aos seus amigos e família, actores improvisados das suas narrativas.

Como este tipo de cinema não tem qualquer subsídio, todos os custos eram financiados pelo trabalho de Maria José e do seu marido, na queijaria. Há 40 anos que não passava férias, o tempo e o dinheiro das mesmas eram gastos a gravar.

As histórias relatadas tinham sempre uma moral muito forte. O amor entre diferentes classes, a infidelidade, o respeito pelos mais velhos, entre outros, eram temas que inspiravam a “cineasta do povo”.

Numa visita que fiz à Queijaria Amaral, na qual comprei o cd da música que aqui partilho, juntamente com o seu filme mais reconhecido – Mulheres Traídas – Maria José emocionou-se a tal ponto ao contar-me a sinopse do filme, que as lágrimas lhe caíram pela cara. Ela vivia de tal forma as histórias que contava que é impossível serem apenas ficção, há nas suas obras muito da sua vida.

Além de realizadora, Maria José era também a autora das bandas sonoras dos seus filmes. Canções populares, de raíz tradicional, com letras que ilustravam as histórias que contava. Este tema que aqui partilho, retirado do disco “Cantando a vida”, está presente no filme Mulheres Traídas. A música é uma verdadeira sinopse do filme, se a ouvirem ficam com uma ideia clara da sua temática.

Maria José Silva morreu a 7 de Junho de 2015 no lar do Comércio do Porto, aos 77 anos.  Deixou um filme por realizar – “O Filho do Conde” – a história de uma jovem pobre que se apaixona por um conde. Apesar de nos últimos anos de vida ter tido alguns ciclos de cinema em sua homenagem, nunca chegou a ter o reconhecimento que a sua dedicação merecia.

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